terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Brasil mínimo

No Brasil, tudo é mínimo: o salário, a renda, até o Estado há pouco tempo era para ser mínimo.
Roberto Malvezzi (Gogó)*
18/02/2011
No Brasil, para a maioria da população, tudo é mínimo: o salário, a renda, o Bolsa Família, até o Estado há pouco tempo atrás era para ser mínimo. A saúde e a educação talvez nem cheguem ao mínimo, mas o mínimo é a meta a ser conquistada.
Superar a fome, a sede, a miséria, sanear as cidades e implantar uma educação e saúde eficientes é possível mesmo dentro de um Estado capitalista. Portanto, por hora nem se discute a implantação de um Estado socialista, com a superação das injustiças estruturais. As próprias políticas do governo Lula, assim como o propósito de erradicação da miséria de Dilma, se dão dentro dos marcos da sociedade atual. Com o potencial de solos, água, sol, minerais e até mesmo tecnológico que temos, são metas que podem ser atingidas até dentro desse modelo.
Claro, por outro lado sobra o Brasil máximo: a renda concentrada, o patrimônio, a propriedade, além da concentração do poder, do saber e demais mecanismos que garantem a estruturação classista brasileira.
Talvez aqui resida o nó mais controverso entre as esquerdas nos últimos anos. Enquanto alguns setores desdenham essas conquistas mínimas, porque não mudam estruturalmente o Brasil, outros as defendem como se tivéssemos solucionado todos os problemas nacionais.
Vivendo na região semiárida há trinta anos, sabemos o quanto essas conquistas do Brasil mínimo foram e são importantes para nosso povo. Afinal, é melhor viver num capitalismo comendo e bebendo que morrendo à míngua de fome e sede, como literalmente acontecia até pouco tempo atrás.
Porém, contentar-se com o que está posto, é contentar-se com a sub cidadania. Chegará a hora, como acontece nas periferias francesas, que essas populações se rebelarão com o mínimo a que foram relegadas, enquanto outros desfrutam de todas as benesses da sociedade moderna.
Ainda mais, com as mudanças nos paradigmas que estamos atravessando, ficará cada vez mais difícil pleitear o consumismo como parâmetro. De alguma forma, teremos que nos contentar com o que é fundamental, com um vida digna, descartando ter como meta a sociedade do luxo e do desperdício.
* Assessor da Comissão Pastoral da Terra
Publicado originalmente na edição 415 do Brasil de Fato.

O outro mundo possível chama-se Ecossocialismo

Site Carta Capital
Kanya D'Almeida, da IPS
17/02/2011
Por Nova York, Estados Unidos – Joel Kovel, que teve um destacado papel em várias edições do Fórum Social Mundial (FSM), que nesta semana acontece em Dacar, afirma que o movimento deve ter por base uma prática e uma lógica anticapitalistas. Considerado o pai do movimento Ecossocialista, Joel analisa a história, trajetória e o futuro do movimento. Também é um dos autores do Manifesto Ecossocialista, que detalha um caminho alternativo ao atual de destruição ambiental. Joel disse à IPS que é preciso dar nome a este “outro mundo” e posicioná-lo firmemente contra a ameaça do capital global.
IPS: Qual foi seu papel nas edições anteriores do FSM?
JOEL KOVEL:
Ecossocialismo é um conceito inerentemente global, não internacional, por isso o FSM é um lugar ideal para discutir suas principais ideias. Apresentamos o manifesto em Nairóbi em 2007, e o revisamos com um grupo de centenas de pessoas. O Ecossocialismo cresce magnificamente no terceiro mundo, mas é o quarto mundo, dos indígenas e dos povos sem Estado, o que realmente está à frente neste assunto. As pessoas do quarto mundo vivem em relações comunitárias e são vítimas diretas das corporações mineradoras e petroleiras predadoras que se enfiam no coração da terra e destroem as comunidades que são parte do solo. Por isso, dependemos do espaço único do FSM para difundir as ideias do Ecossocialismo.

IPS: O que se discute no FSM sobre a crise ecológica é suficiente?
JK:
O FSM tende a se concentrar em áreas específicas dentro do assunto mais amplo do ecocídio, ou ecodestruição, como as sementes geneticamente modificadas ou a acidificação dos oceanos e o desmatamento. É preciso atender esses assuntos, mas não é suficiente para lidar com a magnitude da crise, que exige um diagnóstico muito mais amplo do que apenas das causas subjacentes do problema. Há pouquíssimo rigor teórico ou agudo sobre a crise ecológica em geral no FSM por muitas razões. As pessoas estão tão aterradas, há tantas causas válidas para se lutar, os problemas são difusos, com diferentes assuntos arraigados em localidades dispersas e ninguém pode decidir quais são os limites entre uma crise e outra. São tantas interrogações, como a de quando a crise dos oceanos passou para a atmosfera. É compreensível que as pessoas se mostrem reticentes em questões simples como a proliferação das garrafas de plástico.

IPS: O que o FSM pode dar de novo para avançar rumo a uma solução?
JK:
Atualmente existe um problema de definição no FSM. Surgem diferentes questões que são transtornos ecossistêmicos, como a dúvida de quando se destroi a floresta pela monocultura, por exemplo. Cada crise ecossistêmica tem sua própria realidade concreta e localização específica, como o desastre de Bhopal, na Índia. A verdadeira crise ecológica é o conjunto de todas elas, que se agravam com rapidez, se propagam pelo mundo e aumentam de forma exponencial. Se quisermos encontrar a causa das diferentes crises sistêmicas, devemos olhar todas elas em conjunto e encontrar o que têm em comum. Cada problema tem sua própria causa, mas, virtualmente cada uma está vinculada à expansão capitalista e pode-se seguir seu rastro até a porta de um banco ou uma potência imperial. Se o FSM pretende atender o problema, deve identificar e articular a questão do capital global, que pode ser pensada de forma metafórica como um câncer que apresenta metástase. Sem importar a forma escolhida para tratar a doença, deve-se reconhecer que é uma realidade.

IPS: Em que o FSM mudou desde sua primeira participação em 2003?
JK:
Infelizmente, o FSM tem tendência a girar em falso devido aos limites inerentes ao seu lema de “outro mundo é possível”, que é repetido até cansar e acaba sendo desanimador porque nunca chega a ser realmente desenhado. Porém, fato é que o FSM é o único lugar no qual se pode articular uma nova realidade, não apenas pensar na possibilidade de uma. Logicamente, deveríamos poder dizer que este “outro mundo” é o do Ecossocialismo. Entretanto, dada a natureza das organizações não governamentais e sua especialização em certas crises, o FSM não se refere o suficiente à causa da crise do capitalismo. O Fórum deve identificar o inimigo e lhe responder.

IPS: Pensa que Dacar oferece uma oportunidade para consegui-lo?
JK:
Totalmente. A África é um dos lugares mais vulneráveis da Terra, o que é tremendamente irônico, pois é o menos industrializado do planeta. O continente é saqueado pela desapiedada extração de recursos como em nenhum outro lugar do mundo, em primeiro lugar porque é rico. E, em segundo, pela falta de proteção para deter a chegada das companhias. Há mais incentivos na África para começar a pensar de forma sistêmica. Dacar também é um centro mundial de pesquisa em ecologia, muito mais do que Nairóbi, e até mesmo do que Mumbai. O calibre geral dos intelectuais de esquerda presentes é extremamente alto no Senegal..

IPS: O que o FSM pode fazer para lidar com os desafios apresentados no Fórum Econômico Mundial que acontece quase simultaneamente?
JK:
É preciso basear-se firmemente em uma prática e uma lógica anticapitalistas. É difícil, mas certamente possível. Creio que acima de tudo o FSM é um lugar onde a grande variedade de tendências se encontra, conscientes de que seus diferentes problemas são sistemáticos e têm a ver com a penetração do império e do capital global em cada rincão da Terra. Para continuar com a analogia médica, se você tem um paciente com um tumor no pâncreas, só é possível tratá-lo se os médicos concordarem que se trata de câncer. Só a partir daí se pode reunir e pensar no remédio, e há muitíssimas formas de curar isto. Envolverde/IPS

Fonte: Envolverde

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Brasil Rural

Roberto Malvezzi (Gogó)*
10/02/2011
O Brasil rural, com sua população de 29.852.986 (Censo 2010/IBGE) é o quinto país mais populoso da América Latina e Caribe. Fica atrás apenas do Brasil urbano com 160.879.708 de pessoas, do México com 107.431.225 (Banco Mundial), da Colômbia com 45.659.709 (Banco Mundial), da Argentina com 40.276.376 (Banco Mundial), e à frente do Peru que tem 29.164.883, ou Venezuela que tem 28.384.000 (Banco Mundial).

O Brasil rural vem perdendo população tanto em termos relativos como absolutos. No Censo de 2000 a população urbana representava 81,25% (137.953.959 pessoas), contra 84,35% (160.879.708 pessoas) em 2010. Já a rural representava 18,75% (31.845.211 pessoas) em 2000, contra 15,65% (29.852.986 pessoas) em 2010.

Portanto, depende da leitura que se tem dessa realidade para decidir quais políticas são mais convenientes para o Brasil. Os que pressionam para uma urbanização a qualquer custo, sentem-se seguros para afirmar que a distancia populacional entre o Brasil urbano e o Brasil rural só tende a aumentar. Portanto, as políticas podem e devem ser orientadas para atender a grande massa que está nas cidades. Nesse sentido, também não cabe - como dizem que não cabe do ponto de vista produtivo - qualquer reforma agrária. Afinal, o povo prefere as cidades, mesmo que elas sejam um inferno.

Mas essa realidade pode ser lida de outra forma, afinal, com uma população que é o quinto país da América Latina e Caribe, mesmo que percentualmente seja menor em relação à população urbana, o campo abriga quase 30 milhões de brasileiros. Nem vamos falar no tal Brasil “rurbano”, conceito para o qual os especialistas torcem o nariz, mas que ajuda a entender um bairro periférico como o João Paulo II aqui em Juazeiro, onde 30 mil pessoas se aglomeram para trabalhar como mão de obra barata nos projetos de irrigação da cana, manga e uva. O trabalho dessa população é rural, as condições de vida são insalubres, mas é contabilizada como população urbana.

O campo continua um desafio brasileiro. Vem dali a comida que abastece as cidades. O que seria delas sem os cultivadores de hortaliças que estão no espaço urbano? De onde viriam nossos alimentos se não tivéssemos a agricultura familiar?

O Brasil rural que emerge das estatísticas merece uma consideração mais abrangente que a leitura seca de números que mais ocultam que revelam nossa realidade.

* Membro da Comissão Pastoral da Terra

Experiência do P1MC na Bahia ganha Prêmio ANU

A cerimônia de entrega aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
Assessoria de Comunicação do MOC
Feira de Santana - BA
09/02/2011
Em cerimônia realizada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro no dia 07 de fevereiro, o Movimento de Organização Comunitária (MOC) junto com o Afro Reggae foi o grande vencedor do Prêmio ANU 2010. O MOC concorreu com a experiência do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) desenvolvido na comunidade de Cajazeiras, no município de Conceição do Coité.

Após vencer a etapa estadual, a experiência do P1MC passou para a fase final onde concorreu com mais 25 experiências de todo o país. Os grandes vencedores do Prêmio ANU 2010 foram escolhidos por meio de votação popular através do site do Prêmio.

Integrante do Programa Água e Segurança Alimentar do MOC, Kamilla Ferreira representou a entidade e recebeu das mãos do cantor Dudu Nobre o prêmio mais esperado da noite, o ANU Preto. “Parabéns a todas as instituições que concorreram e fizeram essa noite entrar para a história social do Brasil”, disse Kamilla.

O MOC agradece a todos e todas que votaram na experiência do P1MC. Esta vitória é de todas as organizações que integram a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA Brasil).

O vídeo da experiência na comunidade de Cajazeiras está disponível no Youtube pelo link
http://www.youtube.com/watch?v=h1z1zUEOUH0

Sobre o P1MC - O Programa de Formação e Mobilização Social para a Convivência com o Semi-Árido: Um Milhão de Cisternas Rurais – P1MC foi iniciado pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA Brasil) no ano de 2003. Desde então, o Programa vem desencadeando um movimento de articulação e de convivência sustentável com o ecossistema do Semi-Árido, através do fortalecimento da sociedade civil, da mobilização, envolvimento e capacitação das famílias, com uma proposta de educação processual. O objetivo do P1MC é beneficiar cerca de 5 milhões de pessoas em toda região semi-árida, com água potável para beber e cozinhar, através das cisternas de placas.

Sugestão de Leitura

Aqui você encontra documentos, cartas, relatórios e pesquisas sobre temas trabalhados pela ASA, divididos por área.



Água   
   
Sementes  
   
 Desertificação  
   
Gênero     

ONGs      

Políticas Públicas

Agrobiodiversidade 
  

Rio São Francisco      

Agricultura Familiar      

Semiárido       

Meio Ambiente

Depoimentos

"A cisterna me livrou de buscar água na cabeça. Tenho água toda horinha que eu quiser pra beber e cozinhar. Olha que beleza! Não é? Bom demais! A água é de grande serventia". (Maria Lúcia de Freitas Souza, Comunidade Serra da Batinga - Piauí)

 "Para mim foi a coisa melhor do mundo. Eu pegava água longe a cinco quilômetros de bicicleta. Eram 2 baldes de 20 litros por dia, Fazia duas viagens e em cada uma gastava duas horas, subindo e descendo uma grande ladeira. Essa água era para beber, cozinhar e tomar banho. Com a cisterna que estamos construindo vai melhorar muito. Estou muito feliz e espero que venham outras melhorias". (Sheila, comunidade Volta da Jurema -Maranhão)


"A gente descobriu que tinha esse projeto de um milhão de cisternas e conseguimos nos organizar com o sindicato dos agricultores rurais daqui de Afogados. Participamos das reuniões, dos treinamentos sobre a cisterna e como que a gente utiliza água em casa. Porque não é só ter a cisterna, a gente tem que saber tratar da água. Eu cuido da minha cisterna usando hipoclorito de sódio. Sou agente de saúde e dou assistência a cinco comunidades aqui na região. O que a gente vê por aqui é que as verminoses dão na água não-tratada. Porque no sertão a água que a gente bebe é de açude, que é uma fonte de risco muito grande para a população (....) A cisterna mudou muito a vida da gente e vai mudar a vida de outras pessoas também." (Maria do Socorro Almeida Jacinto, comunidade de Barreiros - Pernambuco

"Era muito difícil aqui. No período da estiagem a gente passou muitas dificuldades pra lavar roupa, tomar banho e até mesmo pra beber. E, agora, com a cisterna, facilitou tudo. Antes, a gente procurava os riachos, uma água de péssima qualidade. Por causa dessa água, não só os filhos meus, mas na comunidade, as crianças adoeciam desse negócio de diarréia, vermes, essas coisas aí. Antes da cisterna, quem ia buscar água era eu e meu marido. Inclusive, ele tem um problema de saúde por conta disso, né? Ele tem hérnia de disco, por causa desses tambores pesados. Agora, a gente não precisa mais ir buscar água. O tempo que sobra tem agora o roçado, os bichos e os trabalhos de casa. As crianças que ajudavam também a pegar água, ficam mais livres pra escola. (...) A gente economiza e continua economizando porque a água é tudo. Sem comida a gente pode até passar, mas sem água não". (Antônia Guilhermina Dias da Silva, Manguape - Paraíba)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Experiencia do P1MC já pode ser votada na fase final do Prêmio ANU

 





O trabalho do Programa 1 Milhão de Cisternas na Bahia foi o vencedor da etapa estadual do Prêmio Anu. Junto com outras 26 iniciativas a experiência passa para a fase final, onde através da votação aberta ao público a partir do dia 07 de janeiro de 2011 pelo site do prêmio, será escolhido um único vencedor.

A comunidade rural de Cajazeiras em Conceição do Coité é a experiência representada pelo P1MC. Nesta comunidade diversas famílias foram contempladas pelas cisternas por intermédio da Articulação do Semiárido Baiano (ASA) e do Movimento de Organização Comunitária (MOC).

Entre estas famílias que tiveram a vida transformada após receber a cisterna, está a família de Dona Florzinha. Nascida e criada na comunidade de Cajazeiras ela relata momentos antes e após o recebimento da cisterna. Segundo ela a cisterna traz consigo a esperança da água de qualidade para beber, cozinhar, lavar, e também fortalece a mobilização política das famílias.

As pessoas passaram a perceber a importância da organização comunitária e iniciaram o processo de luta para alcançar outros projetos que contribuem para a sustentabilidade local. “É conquistando um sonho e começando a sonhar outro, porque assim todos nós ganhamos e melhoramos de vida”, afirma Dona Florzinha.

O vídeo que apresenta a comunidade de Cajazeiras e conta a vida de Dona Florzinha e o trabalho do P1MC pode ser visto através do youtube pelo link: http://www.youtube.com/watch?v=h1z1zUEOUH0
e a votação para escolha do vencedor do prêmio poderá ser feita pelo site http://www.premioanu.com.br/ a partir do dia 07 de janeiro.



Mais informações:

Lorena Amorim. Tel. (75) 3322.4428 / 9955.1123